Crime e castigo: a confissão de Jefferson

O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) confessou nesta semana que o mensalão jamais existiu. Negou terminantemente que houvera qualquer esquema para compra de deputados pelo governo do ex-presidente Lula. Enfim, Jefferson admitiu que mentiu, ou, desdisse o que disse na entrevista à jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, em 2005, quando denunciou suposto esquema de pagamento de parlamentares para votar matérias de interesse do governo do PT. Tal qual o personagem de Dostoieviski em “Crime e Castigo”,   Radion Romanovitch Raskolnikov,  Jefferson fez as pazes com sua consciência, confessando seu crime.

A confissão de Jefferson foi encaminhada na sua defesa no STF (Supremo Tribunal Federal). O presidente do PTB informa que:

1 – O PTB não recebeu recursos ilícitos.
Segundo a defesa, “o acordo político para as eleições de 2004 com o PT, envolveram doação deste ao PTB, de R$ 20 milh?es. A doação está amparada na resolução 21.609/04, artigo 3o, parágrafo único, inciso IV,que indica doação de partido político como fonte de doação”. Além disso, cita a Resolução 20.987/2002, artigo 10, inciso IV, que indica doação de partido político como fonte de arrecadação. “Assim, os R$ 4 milhões pagos pelo PT, como parte do dito acordo, nada têm de irregular, dirá criminoso”, sustenta a defesa.

2 – Não houve cooptação de deputados do PTB para votar em projetos do governo Lula. “O PTB apoiou a candidatura de Lula no segundo turno de 2002, portanto fazia parte da base do governo”, alerta.

3 – Para os advogados de Jefferson, diante do exposto as acusaç?es da Procuradoria são improcedentes.Trata-se, segundo a defesa, de uma acusação “puramente retórica” e “sem argumentos fáticos”. Não há na acusação, segundo os advogados de Jefferson, nada que prove a existência do mensalão, ou de algum esquema de lavagem de dinheiro para a compra de votos parlamentares.

Se o “acusador-mor” diz que não houve crime, o arquivo passa a ser o destino correto da denúncia sem provas do fatóide chamado mensalão. À defesa-confissão de Roberto Jefferson corrobora trecho da biografia do ex-vice-presidente José Alencar, escrita pela  colunista da Folha de S. Paulo Eliane Catanhêde. No livro, Catanhêde relata reunião entre os presidentes do PT, José Dirceu, do PL(PR) Waldemar Costa Neto, sob testemunho de Ze Alencar e Lula para tratar da arrecadação de recursos para campanha de 2002. O texto figura como peça de defesa do ex-tesoureiro Delubio Soares:

– A pergunta era: como distribuir recursos?
Curiosamente, conta Alencar, quem sugeriu o critério foi seu assessor, Adriano Silva:
“Os dois partidos trabalhariam para levantar os recursos e depois distribuiriam toda verba de campanha proporcionalmente ao numero de deputados de cada um, sendo o PT com 3/4 e o PL com 1/4”, registra o livro.

A defesa do professor Delubio Soares também desnuda a farsa chamada mensalão. Os advogados fizeram uma contabilidade inapelável. Do total de 394 depoimentos transcritos nos autos, nenhum dos depoentes afirma ter falado com Delubio sobre compra de votos de deputados. Dos 79 senadores e deputados ouvidos nenhum deles tratou com o ex-tesoureiro do PT sobre o aludido esquema denunciado a época por Jefferson, e agora negado, desmentido pelo mesmo ao STF.

O mensalão deixa a esfera criminal para retornar aquilo que sempre foi, uma trama política que visou o impeachment do presidente Lula. Se houve crime, ele foi eleitoral, de caixa dois, como sempre alegaram os envolvidos. Os empréstimos bancários junto aos bancos Rural e BMG estão amparados na legislação eleitoral.Os deputados não foram cooptados. Não foram desviados recursos públicos. A acusação movida pelo MPF não se sustenta.

Há exatos 145 anos o grande escritor russo Fiódor Mikhael Dostoiéviski lançava o livro “Crime e Castigo”, inaugurando o thriller psicológico. O livro narra a angústia do estudante Radion Romanovitch Raskolnikov, atormentado pelo assassinato de duas mulheres.  Apesar de cometer o “crime perfeito”, e de um inocente ser preso em seu lugar, Raskolnikov confessa, para pôr fim ao seu tormento. Há outra interpretação para obra de Dostoiiéviski: criminoso confessa porque quer ser reconhecido pelo crime praticado. Ficam assim, evidenciados os interesses por trás da opereta bufa encenada pelo aprendiz de tenor Roberto Jefferson. Fecham-se as cortinas.

Marcus Vinicius é jornalista, economista e edita o blog: www.marcusvinicius.blog.br

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